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9 de jun. de 2010

100 anos de Pagu

Hoje, Pagu completaria 100 anos de vida

"Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre"

"Se eu ainda tivesse unhas, enterraria meus dedos nesse espaço em branco que ainda resta"

"A liberdade e a prisão
Ter um barco que percorra
Distâncias incríveis
Saber remendar um sapato
Encontrar um amor
Amor de verdade
Ser vento, fogo ou carvão
Tudo, tudo, tudo
Menos esta ratoeira"

"Tenho várias cicatrizes, mas estou viva. Abram a janela. Desabotoem minha blusa. Eu quero respirar"

"Sou a única atriz.
É difícil para uma mulher
interpretar uma peça toda.
A peça é a minha vida,
meu ato solo".


Menina, inteligente, transgressora, idealista, provocadora, artista, apaixonada, enganada, desiludida, mãe, esposa, noiva, traída, vaidosa, sensível, medrosa... Obrigada.





10 de nov. de 2009

a uniban e a turba

prometo um post com as minhas considerações até o fim da semana.
mas a coluna do Calligaris diz tudo (a da semana passada). pra quem não tem Folha eu copio aqui.

Chorei quando li, o sentimento dele, é aquilo que a gente pensa quando se vê feminista. "não, não acabou o feminismo, o mundo ainda é machista".

***

CONTARDO CALLIGARIS

A turba da Uniban

As turbas têm um ponto em comum: detestam a ideia de que a mulher tenha desejo próprio
NA SEMANA passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.
A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: "Pu-ta, pu-ta, pu-ta".
Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um "justo" protesto contra a "inadequação" da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.
Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre "vendido") de duas maneiras fundamentais: "veados" e "filhos da puta".
Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, "veados" e "filhos da puta" são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.Cuidado: "veado", nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos "veados", por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser "usados" por seus ofensores. "Veado", nesse insulto, está mais para "bichinha", "mulherzinha" ou, simplesmente, "mulher".
Quanto a "filho da puta", é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. "Puta", nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.
Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.
O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de "querer"? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.
A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.
Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de "Zorba, o Grego", com redação obrigatória no fim?Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.

2 de out. de 2009

pimenta nozóio dozotro

acho que esse post e esse post (em english) dizem tudo. Não me interessa, ele estuprou uma menina, ela poderia ser uma mulher de 30 anos na época e mesmo assim seria crime. Ela disse não e ele não ligou. É estupro e é crime, e impunidade é uma coisa que incomoda. Não me interessa se ele é um gênio, um mundo sem estupro é melhor do que um mundo sem filmes. O comportamento dele é típico de quem não tem limites, pode fazer o que quer baseado em ego, fama, poder, machismo...
Almodovar ter a campanha dele, eu tenho a minha:




1 de out. de 2009

a voz dos outros

Que tal começar a falar com a própria voz? Com o próprio tom, e não aquele tom do "fala direitinho" dos pais e professores? Falar sem a intenção de agradar, apenas ser ouvida, como... um homem faria?
Que tal começar a pensar com a própria cabeça? Porque muito da sua "moral" e daquilo nos acostumamos a chamar de ética não passa de ideologia patriarcal, tão internalizada que parece natural. O que te faz anti-aborto? Quem te fez ser anti-aborto?
77% dos lideres anti-aborto são homens, mas eu aposto que os outros 23% são mulheres agradando aos pais, a deus, aquilo que lhe foi ensinado que era certo. É muito obscurantismo achar que o certo é nosso dever, que o certo deve não apenas existir, mas ser imposto. Isso de "estou certo, você é errado" é medieval, e no fundo vocês sabem, non?


* Tradução: 77% dos líderes anti-aborto são homens, 100% deles nunca ficarão grávidos. É o seu corpo. É a sua decisão. Programa de educação pública pró-escolha. É pró-escolha ou sem-escolha.


14 de ago. de 2009

Mama África


Ontem no bar, Rich Bérgamo, ou Rich Bowie, um dos cabras mais valentes do Velho Oeste disse:


Rich - Você tá vendo aquele cara? Ele é o único negro de todo o bar... (o bar era, na verdade, o Republic Pub, na Vila Madalena)
Billie - É mesmo. E você por acaso vê alguma mulher negra?


Hoje, cheguei ao trabalho e li a seguinte notícia na Agência Brasil:



Na matéria linkada aí em cima, Sueli Carneiro, diretora do Instituto da Mulher Negra em São Paulo, disse:

“As mulheres negras estão ausentes de todas as estruturas de poder da sociedade. Elas são absolutamente minoritárias em espaço de decisões. É uma condição de subordinação e de subalternação social que precisa ter as causas e as razões discutidas”

As pessoas mais simplistas podem não ver a conexão entre não existir uma mulher negra no bar, e ela estar fora das esferas de poder da sociedade. Um dia, uma professora negra amiga da minha mãe disse uma vez que ela sofria preconceito dos próprios homens negros. A sociedade está caminhando para a superação do preconceito racial, mas ainda é cega para o preconceito de gênero. Este, mais forte e mais silencioso.

26 de mar. de 2009

foto da semana


A parlamentar dinamarquesa Hanne Dahl cuida de seu bebê e vota ao mesmo tempo, durante sessão do Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
Achei fofo, mas ficou a questão: e se ela fosse homem? Aceitaria a "saia justa" de ter que levar ao trabalho mega-importante seu bebê? Teria a mesma aceitação da imprensa?

Eis o dilema do girl power: superação de limites ou superação da capacidade de subordinação?

fico me perguntando...

7 de mar. de 2009

motivos

da ANSA

é por isso que eu não sou cristã:

"Ontem, o arcebispo pernambucano reiterou que a mãe da menina e todos os médicos envolvidos em seu aborto estavam excomungados, o que na prática impede que um fiel possa receber os sacramentos da igreja, como a comunhão e o casamento.
(...)
Ele também afirmou que o padrasto da menina, que confessou ter abusado dela e de sua irmã mais velha, de 14 anos, não sofrerá a mesma punição porque o estupro não figura entre os crimes considerados gravíssimos pela Igreja Católica."

e é por isso que eu voto no Lula:

"Ao falar sobre o caso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou ontem a decisão do arcebispo pernambucano como "conservadora" e afirmou que a medicina estava "mais correta" que a igreja. "

Falta muito nele, mas, para um político, se levantar contra a igreja católica é mais difícil do que a gente imagina.
E sério, a menina foi estuprada pelo padrasto, e ela tem 9 ANOS. Ficou grávida sem nem saber o que é isso e depois de tudo a igreja, onde as pessoas normalmente procuram conforto, diz que a pecadora é ela.
Não, eu não tenho nada a ver com essa igreja, uma igreja que trata as mulheres com esse desrespeito, como cidadãs de segunda classe, animais obedientes, que imagina que todo esperma é sagrado, mas a mulher não é.
Já rompi com essa instituição, não posso concordar com eles, com suas leis... O deus deles me odeia, é só isso que eu consigo ver, me odeia por tudo que eu sou e tudo que eu faço.
Segundo esse deus eu estou errada desde a hora em que acordo até a hora que vou dormir. O sexo, o trabalho, a pílula, a camisinha, nossos seios, tudo é errado pra esse deus.
Por todas as minhas escolhas, pelas escolhas das minhas amigas e das outras mulheres. Esse deus nos vira as costas desde sempre, é um deus político. Bom seria se ninguém precisasse dele. Aí teríamos chance de viver em um mundo ético.


pôster da propaganda anti-estupro da Itália: "Quem paga pelos pecados do homem?".


19 de dez. de 2008

help me lesley!

lesley gore é o que pode ser chamado de protofeminista. um pouco antes de estourar o movimento feminista ela já cantava a liberação feminina.
alguns anos depois ela seria uma das primeiras artistas a se assumir lésbica (sim, antes da ellen!). nesse vídeo, no início da carreira, ela canta "You don't own me" muito charmosamente.



estou indo viajar com a família do meu namorado, me desejem sorte.
na verdade, me desejem lexotan.
tirei a priminha dele no amigo secreto e tive que comprar uma "Barbie chapinha" de presente para a menina. essa barbie é tão antifeminista (e cara!) que eu não consigo nem olhar pra ela, mas entre ajudar o movimento e me ajudar nesses dias difíceis em território inimigo tive que escolher ME ajudar e agradar a família do chuchu. não tá fácil, sério. estou levando "o vermelho e o negro", que eu não consigo parar de ler, pra ter com quem conversar.
(dois frontal pra cada vez que a mãe dele der a entender que a mulher da vida dele é ela, e um diazepanzinho para cada referência de ex. tudo com caipirinha, por favor. )

3 de dez. de 2008

ser mulher - parte 2

"Tudo o que não aconteceu com você – eu digo isso de mim mesma como uma parte daquilo que sobrevivi – tudo que não aconteceu com você é uma pequena folga na sua coleira. Você não foi estuprada quando tinha três anos, ou quando tinha 10. Ou não foi espancada ou prostituída, de qualquer forma que você tenha conseguido escapar disso, essa é a medida da sua liberdade. E a medida da sua força. E aquilo que você deve a outras mulheres. Não estou pedindo para que vocês sejam mártires, não estou pedindo para desistirem de suas vidas. Estou pedindo para que vivam as suas vidas, com honra e dignidade. Estou pedindo para que lutem. Estou pedindo para que façam coisas para as mulheres que elas mesma fazem o tempo todo na luta política pelos homens. Certo? Nós mulheres colocamos nossos corpos na linha de frente nas lutas políticas nas quais os dois sexos estão envolvidos. Eu não estou pedindo para que vocês sejam pegas, estou pedindo que corram por suas vidas. Se precisarem atravessar uma parede feita de tijolos, atravessem. Se você tiver feridas nos braços é melhor do que dar a "ele" as feridas porque você ficou parada. Nenhuma de nós tem o direito de ficar parada" (traduçao livre minha)

Andrea Dworkin - líder feminista no texto Terror, Torture and Resistance (Terror, Tortura e Resistência), sobre a necessidade de resistir quando se trata de violência contra a mulher. Atualmente, uma em cada três mulheres é estuprada. E isso se tornou normal. Ser feminista não é odiar homens, é dar às mulheres o direito de serem seres humanos.




hollywoodianos apoiam o feminismo.